Envelhecer em psicanálise
Dorli Kamkhagi
Os fenômenos psíquicos estão em constante diálogo com os fenômenos socioculturais, influenciando e sendo influenciados por estes. Assim, o envelhecimento, que intrinsecamente se liga à noção de falibilidade e finitude (morte), tem sua inscrição na cultura. Essa inscrição, além de corresponder aos modos como contemporaneamente circula a imagem socialmente construída do envelhecimento, é também fruto de tradições milenares. Buscamos na matriz teórica freudiana subsídios para avançar nessa questão, bem como mapear o campo psicanalítico atual. Como pano de fundo que motiva os objetivos deste artigo, há um pressuposto cujo cunho é de convicção pessoal dos autores, a saber, que a clínica psicanalítica do envelhecimento pode ir além do papel de dar um suporte terapêutico, ou quiçá, de psicanaliticamente ensejar ao sujeito a ressignificação de sua história, ou ainda de propiciar ao sujeito que ele aprenda a lidar com as perdas e lutos da idade.
Palavras-chave: envelhecimento, clínica psicanalítica, finitude.
Ao pensar na clínica no envelhecimento, trabalho que desenvolvemos em nossos estudos psicanalíticos já há alguns anos, juntamente com a nossa própria elaboração de lutos e perdas, temos uma dimensão do processo da finitude, suas problemáticas, ressonâncias, dissonâncias, bem como seus limites e possibilidades.
Faz-se necessário explicar o processo singular daquele que sofre suas perdas e adentra ao universo da dor a qual a análise tende a oferecer novos lugares de ressignificação da própria história de vida.
Comparada a outros temas da psicanálise, a questão do envelhecimento sempre foi relativamente pouco explorada, no entanto, atualmente a preocupação e cuidados com o tema, parecem ter ganhado um olhar mais dedicado da abordagem psicanalítica.
De específico haveria apenas a decadência física e a consciência de que o fim se aproxima. Não há em sua obra uma teoria explícita do envelhecimento e os termos “velhice” e “envelhecimento” pouco ocorrem em seus textos.
A psicanálise contemporânea, contudo, não se restringe a Freud. Como se mostrará, a visão de Freud sobre o envelhecimento é marcada pelo negativismo e pela concepção de que se trata de um período de decrepitude progressiva. Apresentaremos suas observações esparsas sobre velhice e morte para tentar compor um pequeno painel da visão freudiana sobre o envelhecer.
Atualmente as grandes alusões ao tema colocaram a ideia do envelhecimento em importante destaque nas discussões clínicas sobre o psiquismo do sujeito que envelhece também em seus sintomas.
Evidentemente seria preciso completar o pano de fundo histórico, biológico e midiático já apresentados em estudos pregressos como um recorte da visão psicanalítica contemporânea sobre a velhice. A meta do artigo não será debater cada um dos textos (como já mencionamos), mas sim mapear o campo e apresentar recortes por alguns autores, ressaltando a temática de cada um (por exemplo, sublimação na velhice, luto na velhice, etc.) e sua ênfase clínica ao trabalhar os medos e angustias que antecedem a morte.
Menções sobre envelhecimento na obra de Freud
Em carta a Fliess [número 18], Freud (1950) aborda brevemente a questão da senilidade nas neuroses. Faz referência à senilidade como uma degeneração de um estado de normalidade que se adquire ao envelhecer. A velhice é vista sob a perspectiva da decrepitude como um destino inexorável, associado a um movimento de finitude relacionado ao adoecer.
Em “Sobre os fundamentos para destacar da neurastenia uma síndrome específica denominada neurose de angústia” (1895), nosso autor trata do tema sob o ponto de vista da economia psíquica libidinal própria do envelhecimento. No que tange ao climatério masculino (p. 119-20), não haveria diminuição da libido; no entanto, no climatério feminino ocorreria um grande aumento da excitação somática, que a psique se mostra insuficiente para controlar, segundo o autor. Assim, uma alienação sexual entre as esferas psíquica e somática, no curso tomado pela excitação sexual, se estabeleceria mais prontamente nas mulheres do que nos homens.
Em “A interpretação dos sonhos” (1900), o tema é mencionado algumas vezes no quinto capítulo – parte B, “Sonhos sobre a morte de pessoas queridas”. O autor emprega o termo a propósito de outro assunto, e apesar de tratar dos sonhos de morte, sequer aborda o envelhecer. Freud faz um desenvolvimento sobre o material oculto contido nos sonhos e que pode se tornar a expressão de desejos remotos, oriundos de outras etapas de vida.
Aliás, em certa medida, a questão do envelhecimento encontra-se até um pouco disfarçada. No mesmo trabalho encontra-se uma menção a Cronos, mostrando o problema das relações entre as gerações e a dificuldade de um pai perceber a sua temporalidade (morte). O autor coloca ênfase nos sonhos que reportam à dificuldade de aceitar que alguém muito querido possa morrer. Dessa maneira, a condensação e o deslocamento, atuantes nas representações oníricas, podem ajudar a suportar a angústia que a compreensão e a interpretação dos sonhos nos revelam sobre o envelhecer e a morte.
Em “O mal-estar na civilização” (1930 [1929]), o autor menciona que: “destinado à ruína e à dissolução, [o corpo] não pode prescindir da dor e da angústia como sinais de alarme” (p. 95). Discute também a dor e o desprazer que acompanham os indivíduos a partir de três eixos: a) o do nosso próprio corpo (condenado à decadência e a finitude); b) o do mundo externo (que pode estar contra nós e ser impiedoso) e c) o dos relacionamentos afetivos. Quanto ao envelhecimento, contudo, há apenas uma breve menção aos sofrimentos oriundos do momento do envelhecimento, o qual pode também ser vivenciado como um período de degradação e sofrimento que invariavelmente leva à morte.
Em “Sobre o narcisismo: uma introdução” (1914), Freud destaca que a morte seria o ponto mais espinhoso do sistema narcisista; afeta a imortalidade do ego, que a força da realidade assedia duramente. Aponta, ainda, que cada psiquismo em concordância com sua historicidade e suas próprias séries complementares poderá promover um tipo de processo de luto e resignificação.
O texto “A transitoriedade” (1915) talvez seja (juntamente com “Luto e melancolia”) o mais importante a ser considerado nessa exposição. Trata-se de um escrito breve e denso, não aborda diretamente o envelhecimento e a morte, mas cujos desdobramentos conceituais contêm quase uma “teoria” freudiana sobre a velhice e a morte, tanto que influenciou diversos autores e que serão discutidos adiante.
Freud considera que a existência humana é transitória, necessitando que se realizem os processos de lutos ligados às perdas e mudanças. Ele apresenta a questão da necessidade de uma elaboração contínua do luto frente à passagem do tempo e seus efeitos de destruição.
Freud (1930 [1929]) afirma que o corpo está destinado à ruína e à dissolução, não podendo prescindir da dor e da angústia como sinais de alarme. Os aspectos mais importantes do texto são fundamentalmente propor a idéia de: (a) ativar o processo de luto via elaborações contínuas de resignificações que dariam um outro equilíbrio, revalorizando a transitoriedade; (b) existência de uma regulação deficiente da auto-estima; desejo de fugir para o passado e um intento de recuperar o tempo perdido. Assim, “impedir” o processo de luto normal implicaria um “jogo” de valores e poderes com a transitoriedade que impediria a mudança psíquica e sua resignificação; (c) o sujeito ao vivenciar a “lentidão do dolorido tédio no mundo” onde sua auto-estima se apresenta comprometida, imobilizada e cronificada em estereótipos pessoais, tem dificuldades em encarar novos planos ou projetos.
Finalmente em “Aspectos contemporâneos sobre a guerra e a morte” (1915), Freud consagra o segundo e o último capítulos ao tema da nossa relação com a morte. Embora sugira uma dedicação à questão de nossa morte pessoal, na verdade esse tema é abordado apenas marginalmente. Em essência, o autor reafirma nesse artigo sua conhecida concepção de nossa incapacidade de conceber a nossa própria morte. Não só nas fantasias conscientes permanecemos como expectadores imaginários que assistem ao nosso próprio fim e imaginamos o mundo sem nós (portanto, de fato, para imaginá-la temos de nos imaginar observadores vivos), como também no plano inconsciente – no qual não há contradição, não há a negativa, não há o tempo – fica excluída a possibilidade de representar a nossa finitude. Ademais, o Homem seria herdeiro de estruturas psíquicas arcaicas que, embora concebam a morte dos inimigos e estranhos, não se conformam com o fim da existência dos entes queridos e tampouco toleram a ideia da própria morte. Frente à morte dos inimigos, também surgiria um sentimento de culpa inconsciente que se manifestaria na crença de espíritos malignos e vingativos. Nesse artigo Freud também menciona, ainda que marginalmente, o fato de que para se viver é preciso ter coragem de morrer, algo muitas vezes debitado à literatura e à dramaturgia, as quais nos apresentam heróis capazes de fazê-lo e com os quais podemos nos identificar sem termos o ônus efetivamente morrer.
Ausência de uma concepção teórica do enfrentamento da morte pessoal e do envelhecimento em Freud
Como se pode notar, Freud enfatiza o envelhecimento como um período de resistência e, finalmente, de capitulação aos novos limites que se impõem à satisfação da libido objetal. Há um progressivo abandono do investimento de objeto. A vida se empobrece, a base biológica da libido se enfraquece e há um declínio do interesse em novos investimentos e vínculos afetivos. Haveria assim uma regressão ao narcisismo primário que levaria a libido fundamentalmente às fases pré-genitais (principalmente à fase anal) e a retomada de investimentos no Eu mais arcaico e egoísta. Desse modo a velhice traria consigo uma diminuição dos recursos pulsionais genitais das pulsões-sexuais; propiciaria, ainda, uma regressão pulsional e poderia redundar em um retorno do recalcado, causando um novo rearranjo e perturbações na psique.
Embora diversos autores tenham se inspirado nesse conjunto de concepções esparsas para avançar em suas hipóteses sobre a velhice (Ferenczi, Abraham, etc.), de modo geral é a influência de autores como Melanie Klein e de psicanalistas da psicologia do ego que irão, de fato, se fazer mais presentes na atual psicanálise da velhice.
A partir desse breve esboço das concepções freudianas, chama a atenção o fato de que uma relação tão evidente – e que se auto-impõe – a conexão entre a velhice e a morte estar ausente na obra do pesquisador vienense. O criador da psicanálise se dedicou a uma extensa teorização da morte, a qual culmina com a elaboração do conceito de “pulsão de morte”. Essa formulação, entretanto, é tratada quase metafisicamente como movimento pulsional da Natureza (isto é, a morte como princípio ou tendência biológica), ou colocada clinicamente em conexão com a destrutividade (sadomasoquismo, agressividade, etc.). Nota-se, assim, que o tema da morte como finitude, estreitamente ligado ao envelhecer, fica despersonalizado e despojado de seu potencial trágico ao incidir na singularidade.
Ora, esse gritante silêncio sobre a conexão envelhecer-morte poderia levar à indagação se, embora presente na teoria freudiana, ela não estaria de fato ausente, pois a morte parece negada e cindida da questão do envelhecimento. Observa-se também a ênfase dada ao fato de que não somos capazes de representar a própria morte, assim como a ausência do medo da morte e do envelhecer – elementos que justamente personalizam para cada um de nós a questão da finitude.
Apresentada como tendência destrutiva inerente à natureza, ou como mutilação patológica (que o sujeito se auto-impõe ou deflete), a morte permanece em Freud desencarnada do envelhecer pessoal e concreto do nosso próprio corpo. A teoria psicanalítica, portanto, permanece órfã de uma conceituação que nos ajude a compreender como cada ser humano realiza o trabalho de elaboração de seu próprio envelhecimento e morte. O difícil enfrentamento da castração (frente ao envelhecimento e também à aproximação da morte) talvez possa ser estruturalmente comparável à trama edípica.
Possivelmente uma teorização freudiana sobre velhice e morte, paralela a teoria do desenvolvimento infantil contida no complexo de Édipo, tivesse grande valor clínico e cultural. Foram principalmente Jung e psicanalistas americanos, estes últimos influenciados pelo humanismo e pelo culturalismo, que buscaram realizar uma teorização do envelhecimento análoga à elaboração freudiana do complexo edípico, enquanto outros psicanalistas, mais próximos à matriz freudiana, desenvolveram teorias sobre o envelhecer que se compõem de rearranjos das etapas iniciais do desenvolvimento, bem como de aplicações e reordenações de mecanismos e conceitos freudianos clássicos.
Cabe iniciar então pelos impasses, tratados em separado apenas para viabilizar sua discussão, já que na vida real todos esses fatores encontram-se entrelaçados. Relembrando, os cinco tópicos de cunho “conflitivo” encontrados entre os idosos podem ser descritos como respostas à necessidade de: 1) reatualizar o esquema corporal, a imagem de corpo e o conceito de si; 2) remanejar o esquema desejante ao evidente estreitamento de possibilidades e prazos; 3) lidar com a evidência de que adoecimentos incapacitantes e uma agonia prolongada são possíveis e podem estar próximos; 4) integrar a perspectiva mais concreta da proximidade da morte; 5) adaptar-se ao progressivo isolamento real e subjetivo com relação à contemporaneidade que o cerca.
Passamos a desenvolver considerações pertinentes a cada uma dessas possíveis respostas encontradas na clínica.
1. Reatualizar o esquema corporal, a imagem de corpo e o conceito de si
Quanto a esse aspecto, ao entrar na velhice a tarefa cotidiana com a qual todo ser humano se defronta de reatualizar o esquema corporal, bem como a imagem do corpo e o conceito de si, sofre novos picos de pressão tal como ocorre no estádio do Espelho, na adolescência e nos períodos de grandes traumas (acidentes físicos, adoecimentos e intensas perdas e frustrações no campo da auto-estima – demissões, rejeições amorosas, etc.).
2. Remanejar o processo desejante ao evidente estreitamento de possibilidades e prazos
Frente ao processo desejante, o idoso precisa lidar com a progressiva percepção de que as aberturas, os sonhos, e as infinitas possibilidades que imaginava estarem reservadas a ele, no futuro, foram se fechando e cada vez mais o amanhã se torna previsível, as rotas mais estreitas e, por fim, à frente o aguardam mais perdas do que grandes ganhos. Essa percepção de que aquilo que restava de sua onipotência e de suas fantasias se desfará, exige novos remanejamentos do processo desejante na velhice.
3. Lidar com a evidência de que adoecimentos incapacitantes e uma agonia prolongada são possíveis e podem estar próximos
Com o avanço da idade, tanto a perspectiva de uma possível doença incapacitante como de uma longa agonia vão progressivamente entrando na ordem do dia. Isto ocorre tanto pela percepção do destino dos amigos e familiares de mesma faixa etária, quanto pelos sinais enviados pelo próprio corpo. O reconhecimento da falibilidade muitas vezes traz consigo algumas reações de defesa que antes eram mobilizadas contra a castração.
4. Integrar a perspectiva mais concreta da proximidade da morte
A partir da fase II da velhice, o espectro da morte também se avizinha mais intensamente. Embora Freud mencione que não podemos representar o próprio estado de morte (pois não saberíamos conceber o nada, ou a ausência), isso não significa que não possamos construir as imagens de nossa morte, a partir do que imaginamos que será percebido pelos que nos sobrevivem (podemos nos ver como cadáver, concebermos o que lembrarão de nós e conseguimos visualizar nossos pertences e os locais que freqüentávamos sem nossa presença). Essas fantasias, aliadas ao medo do desconhecido e à sensação de finitude, colocam ao ser humano a tarefa de elaborar um luto antecipatório, na verdade, irreparável.
5. Adaptar-se ao progressivo isolamento real e subjetivo com relação à contemporaneidade que o cerca
Ao final da vida duas contingências levam a um progressivo isolamento do sujeito e exigem-lhe que lide com a solidão e, eventualmente, com a dependência. Trata-se do fato de que paulatinamente morrem os conhecidos e somem as referências culturais (mudam a linguagem, a vestimenta, os hábitos, alteram-se as tecnologias, os códigos sociais) e surgem novas formas que se tornam cada vez mais difíceis de acompanhar. A pulsão humana conhecida como gregarismo, que Freud discute com alguma freqüência, bem como as necessidades de amparo e abrigo quando estamos vulneráveis (o que ocorre ao perdermos as referências), tensionam a tarefa psíquica de elaborar os medos de perda de amor e de proteção.
Cabe, agora, abordar possíveis nexos das implicações de cada um desses cinco enfrentamentos com conceitos psicanalíticos fundamentais:
1. Reatualizar o esquema corporal, a imagem de corpo e o conceito de si
Com a idade, há uma percepção inevitável das progressivas e naturais perdas da capacidade física, da aparência corporal e das capacidades cognitivas. Mesmo permanecendo lúcido e atualizado e mesmo sabendo compensar as perdas com a maior experiência e malícia no uso da inteligência, a maioria dos idosos tende a ter menos capacidade e agilidade do que tinha aos 30 ou 40 anos. Naturalmente, trata-se de três inscrições de perdas diferentes entre si. Seria interessante integrar a discussão desses enfrentamentos a um pano de fundo singular de cada paciente, levando em conta seu gênero, se está na fase produtiva ou impeditiva do envelhecimento, e se chega à velhice frustrado ou razoavelmente satisfeito e reconciliado com vida, mas para fins de nossa discussão, contudo, consideraremos essas três perdas em bloco e indiscriminadamente.
Diremos, pois, que em conjunto elas diminuem a condição de exercer a agressividade e, conseqüentemente, afetam a potência em geral, atingindo em especial as pulsões narcísicas de auto-afirmação (competência e atratividade, pulsões ativas e passivas), bem como a pulsão de apoderamento. Nesse sentido, ambos os caminhos de enfrentamento da castração, a via histérica (o refúgio narcísico e a sedução) e a via obsessiva (o investimento no apoderamento do objeto e o pavonear-se com os próprios feitos e competências) são avariados e eventualmente bloqueados.
Não havendo mais caminhos para compensar a castração, incrementa-se a defesa mais primitiva – a saída fóbica em todas suas vertentes, tanto as francas como as encobertas e discretas: medo de adoecer e eventualmente hipocondria; medo de não conseguir se defender e lutar (o que leva a um recolhimento da vida, estreitando os interesses e espaços de atuação e reduzindo a disposição a correr riscos, evitando o contato com o novo, passando a viver abaixo de suas possibilidades); medo e vergonha de expor sua incompetência cognitiva para lidar com novos desafios e, conseqüentemente, um desinteresse e até menosprezo pelo novo, ou eventualmente uma evitação fóbica, quase alérgica, a novidades e o recolhimento a só ler e rever livros, filmes e músicas conhecidas.
Os esforços para evitar frustrações e a dificuldade de obter experiências de sucesso, quando confrontado com as exigências físicas e cognitivas do cotidiano, trazem como conseqüência, além do referido recolhimento fóbico-evitativo, também as manifestações de ansiedade e/ou depressão próprias das novas contingências dessa fase. Do ponto de vista psicanalítico, ao perceber (muitas vezes de forma realista) essas perdas se inscrevendo como progressivas e irrecuperáveis, diríamos que o sujeito entra em estado de desamparo e o princípio de realidade lhe sinaliza que não há mais o que desejar realisticamente (só alucinatoriamente ou como devaneio – “refugio da realidade”).
Aqui não se trata, portanto, de um recolhimento da libido dos objetos ao Eu, mas da perda de aspectos e identificações do Eu. Ora, poder-se-ia pensar nesse aspecto de modo retroverso ao que se passa quando da identificação, que dota o Eu de aspectos positivos, outrora disponíveis no objeto. Dessa feita a “alteração do Eu” se dá por uma parcial e dolorida desidentificação, trata-se de uma melancolia não por culpa e sadismo de um Supra-Eu, que ataca os aspectos maus do objeto introjetado (modelo clássico de melancolia), mas por luto pela perda dos aspectos bons do objeto com o qual outrora havia se identificado.
O problema desse luto da velhice é que, ao contrário do luto pela perda do objeto do modelo freudiano de “Luto e melancolia” (1914), agora não há como paulatinamente se reconectar a novos objetos (substitutos equivalentes na economia psíquica). Cada vez menos admirável e desejável, o novo Eu que se descortina não permite um processamento (elaboração) interno e leva necessariamente a uma estase da libido e a crises de angústia ou de melancolia. Há uma tendência a introjetar as percepções e expectativas externas (espelhamento social) que, em geral, confinam o idoso a uma posição cada vez mais “fora do jogo”, ou, quando muito, de figura tolerada desde que “se mantenha no seu lugar”.
Trata-se, portanto, de um processo de constituição do Eu por espelhamento que é estruturante na primeira infância, mas não cessa de se atualizar. Se na fase produtiva da velhice o idoso pode seguir em frente e desafiar esse espelhamento, a partir da fase impeditiva da velhice, ele será espelhado maciçamente como incapaz, inconveniente e induzido a ficar discretamente fora de cena (ou de lado), e não há como o Eu resistir incólume (já que, estruturalmente, as atualizações do Eu tem que ser renovadas).
Salvo na psicose, o teste de realidade a respeito de quem somos se dá conferindo, incessantemente, com o Outro o que percebe de nós e mediando esses espelhamentos por via de autoconceitos antigos que temos em estoque (resultante de antigos e consolidados espelhamentos bem introjetados). Com freqüência ocorre um descompasso entre as percepções internas e o espelhamento social, ou seja: o sujeito se sente mais jovem, ou mais doente ou mais desejoso ou mais deprimido, do que sua idade cronológica socialmente sugere. Ocorre que o processo de espelhamento, mesmo na infância e na adolescência, é alienante por natureza, já que o Eu se compõe de uma colcha de retalhos de imagens e representações de objetos que lhe são reenviados como sendo parte dele, criando assim um moi estranho ao je (afinal, a imagem de Eu é a única representação possível das manifestações do je).
Ora, ao ser reengendrado na velhice e direcionando-se para a rejeição, produzindo assim um espelhamento negativo, todo esse processo novamente tensiona a eterna dissonância entre um Eu que sempre se vê transcendendo os limites da imagem que o representa de modo tão incompleto e distorcido para si mesmo e para o Outro. O estranhamento de si e certo grau de desenraizamento podem se tornar um desconforto permanente para o idoso. Esse estranhamento é intensificado pelo próprio ritmo com o qual o envelhecimento se manifesta, isto é, tanto paulatinamente (ano a ano o sujeito se percebe envelhecendo e perdendo a vitalidade, atratividade e beleza da juventude) quanto aos saltos, quando novas alterações mais intensas se instalam “de repente”.
Esses efeitos também aparecem no “duplo” e nos processos que Freud relata no texto “O sinistro” (1919). Embora lá se trate do retorno do recalcado e aqui de dissonâncias entre moi e je, os efeitos imaginários são semelhantes e contribuem para deixar o sujeito ainda mais inseguro a respeito de si e do mundo.
2. Remanejar o processo desejante ao evidente estreitamento de possibilidades e prazos
Há uma tendência a se deprimir ou negar as perspectivas futuras, já que certa desesperança se instala na velhice. O princípio de realidade impõe o reconhecimento de que a possibilidade de realizar os sonhos mais ousados, a abertura da vida para milhares de surpresas e chances, a imprevisibilidade, tudo isso fica mais restrito, senão impossível.
Em termos psicanalíticos podemos dizer que, se por um lado o processo desejante é atemporal, por outro sua veiculação, amalgamada ao princípio da realidade (o “processo desejante realístico”), vai sendo obrigada a murchar, não só diante das diminuições de capacidades aludidas no item anterior, mas também das contingências que foram se definindo ao longo da vida (quais meus talentos, minhas limitações insuperáveis, e as conseqüências das escolhas, passos dados e as “sortes e azares” com que a vida me brindou).
Nos nossos pacientes, vemos amiúde a aflição de observarem que seu tempo vai diminuindo, mas não sabem se a maneira como vivem realmente atende às suas autênticas necessidades. Frequentemente, têm seus desejos que necessitam emergir e serem apropriados.
Algumas contribuições de analistas pós-freudianos
Sándor Ferenczi
Ferenczi considera que as neuroses no envelhecimento seriam causadas por uma dificuldade em modificar a distribuição da libido. Ao envelhecer o homem tenderia a retirar as emanações da libido dos objetos de seu amor, voltando o interesse libidinal ao próprio ego. O psicanalista húngaro também estabelece uma analogia entre pessoas idosas e crianças com perturbações narcísicas, pois ambas acabam por afastarem-se das pessoas, perdendo dessa maneira seus interesses sociais.
Nessa fase da vida poderia ocorrer uma regressão da libido para “etapas pré-genitais do desenvolvimento”. A libido poderia voltar-se frequentemente para formas de erotismo anal, uretral da homossexualidade, do voyeurismo, do exibicionismo e do onanismo.
Algumas depressões seriam interrompidas, entretanto, por períodos de enamoramento intenso, os quais deram ao período de climatério a designação que se tornou popular, “idade crítica”. O alvoroço de climatério seria semelhante a um rufar de tambores que tenta encobrir um grito de morte (libido do ego).
Ferenczi também defende a idéia de que a distribuição da libido nas pessoas idosas pode nos ajudar a entender um pouco o quadro do delírio senil. Pareceria totalmente plausível explicar a perda freqüente da capacidade de registrar novas impressões sensoriais quando, por outro lado, há conservação de lembranças antigas, não por alterações histopatológicas do cérebro, mas como uma conseqüência do empobrecimento da libido objetal disponível. As lembranças antigas devem sua capacidade de reprodução à viva nuança afetiva que apresenta vestígios da libido de objeto ainda intacta e permanece ligada a elas, ao passo que o interesse pelo mundo externo já não permite adquirir lembranças duradouras. Assim, na demência senil as modificações psíquicas e alterações grosseiras ligadas à idade eliminariam a diferença entre o nível de interesses do ego e o nível libidinal.
Karl Abraham
Entre suas muitas elaborações teóricas, Abraham aborda a importância do tratamento analítico na idade avançada. Para ele o prognóstico depende mais da idade da neurose (isto é, quando a neurose se tornou grave), que da idade real do paciente. Nesse caso seriam importantes que alguns cuidados fossem tomados, como, por exemplo, uma participação mais ativa por parte do analista no caso de pacientes mais idosos. Assim, esse autor considera que embora os pacientes tivessem uma idade avançada para iniciar uma análise, se fossem dotados de uma plasticidade, assim como capacidade de fazerem novos vínculos, seria possível, sim, tratá-los psicanaliticamente. Isto é, seria possível desenvolver uma relação de transferência entre o paciente e seu analista, na qual as situações conflitivas (infantis) poderiam ser reatualizadas e dessa forma reelaboradas.
Monteiro
O artigo “Compreensão psicanalítica da transição e crise da meia-idade” (Monteiro, 2005) foi colocado logo no início, pois além de sua originalidade própria, também transita por grande parte da literatura psicanalítica sobre o envelhecimento, funcionando, assim, como uma grande resenha, mencionando muitos dos autores dos quais trataremos mais adiante.
O trabalho aborda a brevidade da vida individual partindo, sobretudo, do texto de Freud “Sobre a transitoriedade” (1915), e conceituando três diferentes vicissitudes frente ao que é passageiro e centrando sua atenção especialmente no corpo percebido pelo indivíduo como ameaça, a partir da percepção de sinais do envelhecimento.
De acordo Monteiro na meia-idade há uma continuidade de desenvolvimento, uma espécie de evolução do narcisismo, uma atualização do ideal do ego, ou seja, uma reativação da conflitiva pré-edípica e edípica, levando a uma revisão das resignificações das histórias dos indivíduos.
O autor retoma a idéia freudiana de que a existência humana é transitória, necessitando que se realizem os processos de lutos ligados às perdas e às mudanças. A partir dessa idéia propõe três disposições possíveis que são ativadas em relação ao transitório e que tendem ao desaparecimento:
1) Elaborações contínuas de lutos e resignificações que dariam um outro equilíbrio (revalorização da transitoriedade), ativando o processo de luto;
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Lentidão do “dolorido tédio no mundo”, a imobilização e a cronificação em estereótipos pessoais que derivam das alterações de auto-estima, dificuldade de se encarar novos planos ou projetos. Nessa segunda modalidade existe um impedimento dos processos normais de luto – tramitação psicopatologicamente melancólica da transitoriedade que impede a mudança e resignificação.
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“Aceleração” (mudança aparente); há aqui “uma revolta contra o transitório”. Desejo de fugir para o passado, com a intenção de “reaver” o tempo perdido. Existe uma regulação deficiente da auto-estima e dos planos para recuperar a juventude perdida.
Luiz Fernando Gallego
Gallego (2001) retoma o tema da cultura do narcisismo (amplamente desenvolvido por Christopher Lasch, o qual destaca o intenso temor da velhice e da morte na cultura narcísica). O autor sustenta a idéia de que em nossa cultura o corpo transformou-se numa fonte virtual de prazer e se tenta reproduzir um modelo estético inatingível. Enuncia a importância de repensar o corpo como instância maior narcísica, e que passa a ser o centro de todas as preocupações, psíquicas e sociais.
Nesse sentido há uma cobrança social em deter o envelhecimento em nome de uma “busca de vida saudável”. “Este corpo que a sociedade contemporânea nos coloniza acaba por ser um ‘corpo estranho’ dentro do próprio corpo. Narciso nunca se (re)apropria de sua imagem corporal de sua beleza, de seu eu, de seu self”. (apud Jurandir Freire Costa, 1984, p. 765).
O corpo passou a ser uma entidade que precisa estar dentro dos padrões exigidos por uma sociedade que cultua a beleza, a juventude, a força e, sobretudo, a saúde. O corpo precisa obedecer a esse conceito que serve, em última instância, como uma armação para proteger-se da finitude e consequentemente da morte.
Para a construção da auto-imagem, é importante que se remeta à questão do narcisismo, termo que tem diferentes sentidos dentro de uma perspectiva psicanalítica. Sobre Narciso havia uma maldição: o mesmo não poderia se ver, dessa forma, quando olha seu reflexo pela primeira vez, não se reconhece como “aquele” tão belo, aquela não era a sua imagem. Não se reconhecendo, tenta alcançar aquele ”tão belo que, para Narciso, era outro. Narciso não se encontra por meios externos, nem internos.
Heinz Kohut
Desenvolve essas questões ressaltando, em vários textos, o narcisismo como sendo a conseqüência de personalidades narcísicas que não têm satisfatoriamente estabelecida uma auto-imagem, uma auto-estima, um amor próprio. Uma conduta autocentrada manifesta pode apresentar falhas importantes na representação do Eu e, consequentemente, no investimento libidinal de si mesmo. Dessa forma, existe a necessidade de se perceber (encontrar) no olhar do outro um espelho que reflita atributos, que não são internalizados como sendo parte constitucional de si mesmo. foi muito importante na contribuição de Kohut a idéia de que o narcisismo é estruturante, e pode ser saudável. Assim, ainda que parte do narcisismo infantil eventualmente permanecesse presente no indivíduo adulto e não sofresse as transformações evolutivas – que poderiam ajudá-lo na aceitação das alteridades, na sabedoria e, sobretudo, na aceitação de finitude e da transitoriedade do self –o autor considera que Kohut tem razão ao destacar o valor que uma reserva de libido narcísica pode ter para ajudar o indivíduo a enfrentar seu próprio declínio.
A problemática da finitude
Sabemos o quanto o envelhecer/amadurecer e uma etapa muitas vezes vivenciada como uma estrada que termina com a morte. O que não deixa de ser algo processual. Por ser tão doloroso vivenciar as crises da chamada meia-idade na qual muitas portas se fecham, de uma forma geral. Existem pessoas que tem em sua resiliência, uma possibilidade de se expandirem e conseguir voltar a sua forma original com elementos e percepções ampliadas.
Para alguns pacientes percebemos o quão difícil é ter aproximações com o processo do envelhecimento, assim como a negação deste tempo e do olhar que o mundo e a sociedade dão; havia uma constante negação como se afirmassem “O velho é sempre o outro”.
Para outros pacientes a depressão se aprofunda e a realidade vai se mesclando com aquilo que não se consegue mais produzir. Ou seja, na medida em que muitas pessoas envelhecem, algumas situações corriqueiras deixam de ser realizadas. Com isso a frustração, angústia e o de sentimento de despertencimento e inadequação ganham força. Passando a ocupar um lugar pulsional, ou seja, de energia psíquica que fora investida em antigos objetos necessitam agora de lutos, para que o sujeito saia do estado melancólico.
Embora o envelhecer se apresente como foco das discussões, um “novo” discurso é construído ao longo das sessões. Contando partes de suas histórias, os pacientes apresentam uma espécie de quebra-cabeças bastante desorganizado, mas que pouco a pouco permite que uma trama se organize e com isso promova novos questionamentos.
O tempo como um limitador, a contradição entre o comportamento esperado pela sociedade e a postura que a pessoa da terceira idade realmente deseja assumir, são temas que pautam as sessões, marcadas pelas angústias, dores e medos causados com a ideia da aproximação da finitude.
Podemos pensar o quanto a fantasia da finitude se faz presente para aquele que envelhecem. Percebemos elementos que se repetem na clínica com idosos. A reatualização do esquema corporal, a imagem de corpo e o conceito de si se evidenciam.
O remanejamento do esquema desejante ao evidente estreitamento de possibilidades e prazos; A percepção de que adoecimentos incapacitantes podem estar próximos; A possível integração de perspectiva mais concreta da proximidade da morte também se instauram.
O entendimento e sintonia com a inevitabilidade do ciclo de perdas progressivas que o envelhecimento impõe, portanto, uma aceitação mais serena das restrições e capacidade de compensar perdas extraindo mais prazer do que está disponível.
O homem envelhece não só em função do corpo, mas também da mente e do olhar da sociedade. É preciso observar que a noção de envelhecimento não representa apenas a passagem do tempo cronológico, mas também a percepção que temos dessa passagem de tempo.
A análise permite reconhecer a eficácia da organização psíquica, bem como seus questionamentos para os sujeitos idosos. Eles necessitam de um acompanhamento que os auxiliem na recuperação de seus espaços emocionais, familiares e sociais. A análise acaba sendo um fórum de mudanças, pois permite às pessoas serem vistas e se verem de diferentes maneiras o que amplia o seu horizonte existencial.
A condição que o processo da análise instala entre o paciente e o analista é um caminho do qual um vínculo muito intenso se estabelece. junto à intervenção analítica acontece o reencontro das problemáticas apresentadas com o sofrimento psíquico.
Entender que para alguns pacientes as perdas econômicas aliadas as crises do envelhecer podem ser um poderoso componente no processo de afastamento de novos projetos de vida.
Aportes psicanalíticos sobre o envelhecimento: considerações finais
Comparada aos outros temas da psicanálise, a questão do envelhecimento tem sido relativamente pouco explorada. É digno de nota que mesmo dentre os autores com relevantes contribuições para o tema, nenhum se dedicou ao envelhecimento como foco central de suas elaborações teóricas.
O próprio Freud pouco se voltou especificamente a essa temática. A concepção freudiana desse período de vida é de que, basicamente, tal qual ocorreria ao longo da vida adulta, o sujeito reeditaria de modo desigual e combinado os modelos de fases de desenvolvimentos infantis, num movimento incessante de atualizações frente às novas vivências e às alterações do corpo.
De específico haveria apenas a decadência física e a consciência de que o fim se aproxima. Não há em sua obra uma teoria explícita do envelhecimento e os termos “velhice” e “envelhecimento” pouco ocorrem em seus textos.
Como se mostrou, a visão de Freud sobre o envelhecimento foi marcada seu pelo negativismo e pela concepção de que se trata de um período de decrepitude progressiva. Entretanto, como se viu, são muito poucas suas alusões ao tema. Desafio maior foi buscar, na matriz teórica geral de Freud, elementos para se lidar com a clínica do envelhecimento. Isto implicou primeiro, a partir do material clínico obtido na experiência com o atendimento de pacientes idosos, selecionar quais os problemas clínicos mais relevantes e difíceis de lidar em análise. Em seguida, foi necessário utilizar esses problemas como guias na garimpagem dos temas e hipóteses freudianas aplicáveis a essas questões.
Constatamos, basicamente, dois aspectos: primeiro, os autores, de modo geral, se reportam a Freud; e segundo, embora haja muitos autores cujos textos são importantes e inspiradores, poucos desses autores especificamente se dedicaram ao tema como questão central e nenhum produziu uma teorização mais extensa, conforme já apontamos.
Esse conjunto de teorias e ideias compôs reflexões, apresentando um conjunto de hipóteses psicanalíticas que poderão servir de suporte para lidar com os problemas psíquicos encontrados ao longo de nossas escutas clínicas.
Conforme anunciado, coube mencionar os principais textos em que se encontram observações diretas de Freud sobre o tema do envelhecimento. Elas são, às vezes, vagas e apresentadas en passant, já que espantosamente o tema não o ocupou de modo explícito.
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